NOSSA INSTITUIÇÃO

A Fraternidade, Associação com fins não econômicos, fundada em 2007, tem como finalidade principal: Realizar intervenções comunitárias estratégicas para melhorar as condições de vida dos moradores da Vila Ferroviária e Conjunto Murilo Resende, bairro Ilhotas, Zona Centro Sul de Teresina, Piauí, Brasil.

Para tal utiliza, desde finais de 2008, a Metodologia  do Tratamento Comunitário, que por sua vez  é um método de trabalho com pessoas, grupos, comunidades e redes que vivem em contextos de alta vulnerabilidade. Essa proposta está composta de cinco eixos articulados entre si (Prevenção/Assistência Básica/Educação/Terapias/Trabalho). Sua finalidade é de melhorar as condições de vida das pessoas, dos grupos e das comunidades. Seu foco no tema de drogas (redução da demanda) respeita a história desta proposta que além de tudo, vai dirigido às situações de sofrimento social das pessoas, dos grupos e das comunidades em condição de alta vulnerabilidade nos âmbitos de educação, trabalho, direitos, laços familiares, de grupo, nas comunidades de vida e com as instituições, moradia, alimentação, segurança, legalidade, saúde, etc. Assim, a proposta é de atuar junto à Comunidade, na Comunidade, com a Comunidade  como um todo e não exclusivamente com consumidores problemáticos de drogas.

Desde 2003 a senhora Rita Lisbôa começou a acompanhar jovens que buscavam ajuda para parar de usar drogas no Bairro Ilhotas e Angelim. Foi ampliando uma Rede Subjetiva de pessoas que colaboravam com suas intervenções. Finalmente em 2007 fundaram a Associação com o nome Fraternidade Terapêutica O Amor é a Resposta com Identidade Jurídica. O nome O Amor é a Resposta é a tradução de um Reaggae bem famoso do Laser Som Volume 8: Love is the Answer, muito apreciado pelos jovens do Angelim, acompanhados nos anos de 2003 e 2005.

A Instituição Fraternidade trabalha com 3 Núcleos de atuação: O Núcleo de Cuidado com Crianças e Adolescentes que atualmente contém 7 Programas: Futsal,  Sementinhas (Crianças de 4 a 8 anos), Viver eu quero Viver (Crianças de 9 a 12 anos), Skate, Teatro, Judô, Dança e Grafite; o Núcleo de Escuta Comunitária que consiste no atendimento às demandas de Adultos em Geral e da manutenção  de um Centro de Escuta para consumidores problemáticos de Drogas  que funciona 2ª., 4ª. e 6ª. pela manhã, de 8h às 14h, e o Núcleo de Formação e Capacitação, que busca parcerias para realização de Cursos Profissionalizantes e Oficinas de Geração de Renda e Sustentabilidade Institucional e outros para a Comunidade em geral. Estes 3 Núcleos estão ligados ao Núcleo Central de Tratamento Comunitário.

A Fraternidade possui em seu Banco de Dados 569 pessoas cadastradas e acompanhadas pelos diversos núcleos e atinge indiretamente a Comunidade como um todo num total de 1.300 pessoas, 284 famílias, através de suas Ações de Vinculação: Caminhada pela Paz, Show de Talentos, Mutirões de Limpeza,  Bazar Comunitário, Comemorações do Dia das Mães,  Dia da Mulher, das Crianças, Festas Juninas e Carnaval  e Natal.

NOSSO TERRITÓRIO, NOSSA  COMUNIDADE

         A Vila Ferroviária é uma localidade do Bairro Ilhotas, caracterizada por um alto índice de desemprego, tráfico e consumo de drogas, homicídios, cujos 1.300 habitantes são 284 famílias de baixa renda e escolaridade, em situação de extrema exclusão, vulnerabilidades e riscos sociais.

Os jovens, que compreendem 40% da população, conforme dados estatísticos recolhidos com a Agente Comunitária de Saúde nos Cadastros do Programa Saúde da Família do Bairro, em sua maioria estão excluídos dos bens e serviços oferecidos à população e passam muito tempo na rua, ociosos, sem opções de áreas de lazer, esporte, cultura e outras atividades de proteção e segurança.

Diante desta situação, intrinsecamente ligada a um processo sistemático de exclusão social, provocado pelo próprio sistema capitalista que impera em nossa sociedade, percebe-se os jovens desanimados, com baixa auto estima, desorientados, se isolando do convívio familiar e social, iniciando consumo e venda de drogas, sem perspectivas de vida.

Há na região alguns projetos sociais direcionados ao público infanto-juvenil, como o “Educar pela Cidadania” coordenado por uma religiosa da Igreja Católica que atende 50 crianças e adolescentes e tem como objetivo desenvolver ações complementares com  público desta faixa etária que se encontra em situação de carência em vista de prevenir a violência e abuso de drogas  e o “Pelotão Mirim” que atende 100 crianças e adolescentes de vários bairros  e tem como objetivo promover cidadania. Mesmo assim, aumenta cada ano, o número de adolescentes e jovens ingressando no tráfico e iniciando consumo problemático de drogas, pequenos atos infracionários e outras práticas antissociais.

Dessa forma, ações urgentes se fazem necessárias  para  intervir nesta realidade, levando a estes jovens novas oportunidades em espaços saudáveis que promovam cidadania e melhora em sua autoestima e, assim, possamos diminuir o número de adolescentes  e jovens ingressando no tráfico e consumo de drogas nesta região.

Nossa Instituição, a ASSOCIAÇÃO  FRATERNIDADE  pretende  contribuir na construção de uma Cultura de Paz, atuando com a promoção da cidadania e auto estima de pessoas em situação de vulnerabilidade social,  moradores da Vila Ferroviária e atendidos por nós, promovendo atividades esportivas, culturais, lúdicas e educativas.

Desde o final do Ano passado (2016) também pessoas em situação de rua tem buscado apoio em nossa Fraternidade, frequentando o Centro de Escuta às 2ª., 4ª. e 6ª. e pessoas de outros bairros tem participado do Curso de Costureiro Industrial do Vestuário promovido pelo SENAI (2017 – Março a Junho) e de outros Cursos de Artes, Serigrafia, Auxiliar Administrativo, Informática.

ENTREVISTA COM RITA LISBOA SOBRE A HISTÓRIA DA ASSOCIAÇÃO FRATERNIDADE

Rita de Cássia

Meu nome é Rita de Cássia, sou psicóloga, sou atualmente Coordenadora dos Programas e Projetos de nossa Associação Fraternidade. Falar da nossa história é falar de minha vida mesmo, eu Fui monja católica durante 14 anos e quando eu saí, voltei para a convivência social, senti que meu caminho mesmo era esse:  social, estar melhorando a vida das pessoas, e meu encontro com a pessoa que tem problemas de consumo abusivo de drogas  foi imediato aqui no Bairro onde eu estava morando, passando pra lá e pra cá e encontrava com eles e eu entendi que esta seria minha área. E começamos a trabalhar então, nesta Comunidade, na Vila Ferroviária já que eu morava aqui por perto.  Fui reunindo pessoas, amigos, familiares, mobilizando porque eu precisava deste apoio  para uma carona, uma festinha de crianças, um Natal. Então com estas pessoas fomos formando um grupo de pessoas amigas, pessoas da minha Rede Subjetiva e começamos a fazer Festa de Natal, conversando com as pessoas. As crianças foram muito generosas desde logo  de início e entendemos que cuidando das crianças estaria cuidando também de seus pais que tinham problemas de consumo abusivo de drogas e que se mostravam um pouco mais resistentes para este encontro e encaminhamentos. Foi quando a gente encontrou o Tratamento Comunitário que veio assim como uma luz no nosso Caminho, pra dizer por onde iríamos caminhar. Eu estava caminhando só pela intuição,  naquilo que eu ia vendo que era legal, mas sem aporte teórico.  Inclusive decidi fazer Psicologia por causa disso, desta necessidade de ter mais conhecimento. Tudo começou na minha própria casa, as crianças iam pra lá, quando fui ver já tinham várias máquinas de costura na minha cozinha para realizar curso para as mães das crianças.  Conhecendo o Tratamento Comunitário identificamos as lideranças,  chamamos as lideranças para fazer algumas coisas juntos. Fomos fazendo os passos do Sistema Diagnóstico Estratégico, conhecendo a história da Comunidade, personagens, conhecendo os potenciais, que tem muitos nesta Comunidade,  pessoas interessantes, pequenos dispositivos comunitários como uma lan house, salão de beleza, ponto de comércio, pessoas que foram contribuindo, foram entendendo nosso propósito através das ações de vinculação, ações que nos permitem estar dentro da comunidade com as pessoas, conhecendo melhor, fortalecendo estes vínculos, conhecendo novas pessoas e se fazendo ver como equipe que estava ali para melhorar  afinal de contas era a nossa Comunidade também, já que todos da equipe moravam ali.  Fomos identificando Demandas, Temas Geradores que as pessoas falam, percebem como dificuldade, temas a serem melhorados e a gente foi tentando atender estas demandas, dentro de nossos limites. Chegou num ponto em que não dávamos conta,   fomos conhecer a Rede,  conhecer o que tinha em Teresina, lugares para consultas, para tirar documentos, psicólogos voluntários para atender a comunidade, grupos de apoio, locais de tratamento terapêutico.  Foi aparecendo muita gente legal o vínculo com as instituições    também foi muito bom, a gente ia até as Instituições e explicava o que estávamos fazendo e as pessoas vinham conhecer e percebiam que era um trabalho sério feito por pessoas de boa vontade e  que estava se profissionalizando. No início tudo era muito informal e pouco a pouco fomos nos profissionalizando naquilo que estávamos fazendo.

Entramos na Rede Latino Americana de  Instituições que fazem Intervenção em Situações de Sofrimento Social –  RAISSS. Quando entramos nesta Rede participamos de muitas formações em vários Países, através de intercâmbios de experiências. Conhecemos e ficamos conhecidos da Cáritas Alemã que se tornou Financiador para a  Implantação do Centro de Escuta em 2014.  O Centro de Escuta é esta Grande Casa de Portas abertas para qualquer pessoa da Comunidade: pode ser uma criança, um consumidor de drogas, uma mãe, alguém que procura um Curso Profissionalizante, alguém que precisa de um atendimento psicológico, tirar um documento, ir a médico,  fazer um Boletim de Ocorrência. Até então, de 2007 até 2013 nosso serviço foi totalmente voluntário, generoso e interesseiro sim, ou seja tínhamos o interesse de melhorar a vida da comunidade, transformando-a num lugar de proteção e segurança para nós e para todos. Chegamos num momento que sentimos que queríamos oferecer mais e neste momento a Cáritas apareceu. A gente tem caminhado com muitas parcerias. Nos sentimos uma Grande Família com nossos Parceiros que usufruem de nossos serviços, que são nossos amigos, vizinhos e com nossos Parceiros institucionais que nos ajudam a estar promovendo a vida destas pessoas.

Na Comunidade, a gente percebe que mudou muito a Representação Social da pessoa que consome drogas. No início,  em 2009, para a maioria das pessoas o consumidor de drogas é aquela pessoa que não tem mais jeito,  que está nos trilhos mesmo, que é um vagabundo que por mais que se ofereça oportunidade ele  não quer nada com a vida, “uma vez noiado sempre noiado”. Fizemos muito trabalho de Rua  para realizar as ações de vinculação.  Muito trabalho de rua mesmo. Nossa vida era estar na Comunidade,  toda a Equipe, mesmo porque todos nós morávamos na Comunidade. A todo momento encontrávamos as pessoas,  Eles batiam em nossa porta.   Este contato de nossa Equipe com os consumidores de drogas foi mudando o pensamento e a visão que a Comunidade tinha deles. Fomos mostrando que cada um deles é uma pessoa que tem uma história,  uma caminhada, Tem um motivo para estar ali naquela situação, não é só porque quer ou pelo vício,  tem muito mais coisa nesta história. As pessoas começaram a cumprimentá-los e eles responderam positivamente. Quando fazíamos ações de mobilização comunitária chamávamos estas pessoas e outras também para contribuir, pois nossas ações eram todas realizadas nas ruas da Comunidade, em frente às casas,  então  eles ajudavam a carregar cadeiras, colocar um ponto de luz, convidar a comunidade, que começou a comentar admirada:  “É usuário de drogas, mas está ajudando!” Isso foi melhorando muito a visão da Comunidade sobre os consumidores de drogas. Certa vez estávamos preparando uma Caminhada pela Paz, precisávamos vender camisas. Um consumidor de álcool que estava sendo acompanhado e estava bem recebeu algumas camisas e as pessoas confiaram de comprar camisas com ele. Em algum momento da Caminhada foi socializado que ele foi a pessoa que mais vendeu camisas e que se mostrou um excelente parceiro. Ele se sentiu valorizado e a comunidade viu que ele tem algum potencial, alguma coisa boa. Então isso foi melhorando muito o pensamento das pessoas que se tornaram mais acolhedoras e compreensivas.

Outro impacto positivo deste trabalho foi o fato de que hoje as pessoas da Comunidade tem um Local de Referência de Cuidado e Atenção que elas sabem que se chegarem ali vão ser recebidas, escutadas, acolhidas, apesar de nem sempre podermos responder imediatamente suas demandas.  As crianças tem opções de  praticar um esporte, de acesso à cultura. Temos proporcionado Futsal, Judô, Volei,  Skate, Teatro, Grafite por causa de um outro Projeto que fomos contemplados para a Prevenção. E os próprios encontros educativos que realizamos independente de ter Projeto ou não. Encontros lúdicos. Passamos filmes, depois eles desenham personagens dos filmes, conversamos sobre algum valor humano ou universal como a Amizade, a Colaboração. Fazemos passeios de Natal para ver a Cidade enfeitada e iluminada. As crianças tem uma perspectiva, uma referência, um local onde elas sabem que vão ser respeitadas. Elas se alimentam, conversam, brincam. Elas tem um lugar onde se sentem bem. Elas tem a Fraternidade. Antes só tinham a Escola.

O chão do Tratamento Comunitário é a construção ou a visualização das Redes, ou seja, os Vínculos, os relacionamentos, pois a gente entende a partir do Tratamento Comunitário que o grande problema  da nossa atual sociedade não é o desemprego ou as drogas, mas o Abandono, é a falta de vínculos fortes que deem alegria à vida das pessoas, a começar de casa.  Estamos muito pouco preparados para ter relacionamentos felizes, saudáveis. Quando surge um grupo dentro da Comunidade, que abraça, que beija,  que valoriza, que conhece pelo nome, que é escutada, que deixa ela falar e colocar pra fora o que tem lá no fundo de si e quer colocar pra fora, quer se expressar.  Temos muitos discursos prontos que dizem o que o outro tem que fazer.   Quando encontra um grupo de pessoas que escuta e não só fala, mas acolhe, compreende, dá uma luz, dar esperança, não necessariamente soluções,  elas se sentem felizes por isso, elas sabem que podem contar conosco porque não perguntamos o número da identidade, mas olhamos no olho e perguntamos “o que você está precisando? Como podemos contribuir? Senta aqui do meu lado, vamos conversar”. A gente se identifica com o que faz. Somos uma grande família que assume esta causa comum, vestimos a camisa. Por exemplo, hoje não é dia de atendimento, mas eu estou aqui e veio alguém solicitar uma escuta, então eu atendi…. porque não? Fazemos o que é possível, fazemos com boa vontade. As pessoas da equipe também tem crianças em casa, tem pessoas com problemas de consumo de drogas em casa. Temos uma causa comum. Somos uma família que se identifica com o trabalho.  Entendo que o Tratamento Comunitário nos ajudou a fortalecer os vínculos, as relações  que já existiam e e a partir destas,  conhecer novas pessoas que foram se tornando nossa Rede Subjetiva Comunitária, pessoas que eram uma ponte entre nós e a Comunidade, que nos ajudavam a nos sentir mais seguros e bem informados sobre eventos do dia a dia. Depois fomos identificando  a Rede de líderes,  pessoas que influenciavam a opinião, o pensamento e os comportamentos dos outros.  Identificamos a Rede Operativa, pessoas que estão sempre por perto, colocando-se à disposição. Buscamos a Rede de Recursos Comunitários Institucionais, pois precisamos muito deles e assim a gente construindo este Chão, esta Rede, ninguém cai  pois  todo mundo  está protegido, todo mundo amparado.   Acredito que isto o TC nos ajudou a construir. Agora, vamos pra frente.  Vamos identificando novas demandas, temas específicos, como por exemplo, Depressão, alfabetização, Área de educação, de reforço, vamos adiante procurando como suprir estas demandas comunitárias.

Entendemos que o foco é a pessoa e não o problema dela,  pontual, os problemas mudam. A pessoa tem que ser acolhida do jeito que ela chega, com aquilo que ela trás.  Cada uma tem um ritmo, uma subjetividade. As pessoas chegam e tentamos entender o ritmo dela. Se ela quer uma internação a gente mostra o que tem,   faz as articulações, mostra um leque de opções. Mas muitas pessoas  não dão conta de parar o consumo imediatamente, não  querem uma internação prolongada ou sequer uma internação de 15 dias como é o caso do Hospital de Referência. Tem pessoas que não se adequam nem com um CAPS Ad ou não gostam de Grupos de Apoio.  A gente entende isso. Então pensamos: estas pessoas vão permanecer excluídas?  Podemos trabalhar com a melhora em outras áreas de sua vida. Pensamos então que podemos cuidar de sua saúde. Ao ir a uma Consulta Médica vamos juntos. Nossa proposta é incluir todo mundo. Ninguém pode ficar de fora. Ele está consumindo drogas, mas tem outros problemas de saúde. Não encaminhamos…. vamos junto, vamos conversando, lanchamos se for possível, nos primeiros momentos investimos tudo. E um processo de conquista. Eles são nossos parceiros, tem muito pra dar.  Não são coitadinhos, dão conta de muitas coisas. Então, no processo de ir tirar um documento ou fazer uma consulta médica ou outro problema relacionado a familiares, vamos introduzindo um Processo de Redução de Riscos e Danos, pois naquele momento que a pessoa está conosco ele não está abandonado, não está sozinho, não está consumindo drogas, ele está acompanhado. Os que vem ao Centro de Escuta, por exemplo,  entendemos que nestes 3 dias da semana, de 8h às 12h que ele permanece conosco, conversando,  sendo acolhido, valorizado,  se  alimentando, vendo um Programa de TV, e todo este processo de sociabilidade os ajuda a  redescobrir a identidade e isso é muito impactante. Temos vários casos de pessoas que hoje já não necessitam muito do centro de escuta, onde veem somente visitar, conversar com os outros ou até mesmo fazer um serviço voluntario, pois não necessitam mais. Para nós não é importante se está consumindo drogas ou bebendo, pois eles podem inclusive estar fazendo o uso moderado e melhorando a sua vida de alguma forma, percebendo outras coisas ou até voltando a trabalhar. Tem casos como por exemplo de mães que chegam no centro agradecendo e citando gestos que antes não aconteciam e passaram a ocorrer. Nos emocionamos muito com cada história, precisamos elaborar um livro para cada um desses momentos, necessitamos que as pessoas conheçam essas histórias, até porque é possível melhorar uma comunidade a partir das próprias pessoas. Temos um caso de um parceiro que não pedia mais a bênção de sua mãe e hoje voltou a cultivar este hábito.

Esse ano estamos com o projeto de ampliação do Eixo 5 do  tratamento  comunitário que é a questão da ocupação e do trabalho, durante esses 3 primeiros anos do projeto da Caritas e antes também, acreditamos ter feito bastante e queremos continuar fazendo para as novas pessoas que irão chegar. Entramos no momento em que a educação, alfabetização, novas habilidades profissionais e cursos de capacitação é muito importante, para eles mesmos terem autonomia financeira e se sentirem cidadãos que dão conta de sua vida, então queremos inserir daqui para a frente as questões de capacitação profissional, geração de renda ampliando as oficinas. Está sendo preparado uma sala que será a sala de geração de renda e uma oficina de marcenaria com a ajuda do Rotary Clube Internacional e a Piçarra que é o bairro próximo, queremos tornar esse espaço de trabalho onde as pessoas podem vir e formar pequenas cooperativas,  gerando suas rendas e melhorando sua situação de cidadania de direitos humanos plenos.

O dia a dia da nossa fraternidade é realizado com muito companheirismo, temos uma equipe que foi formada ao longo desses anos por pessoas que trabalhavam voluntariamente e hoje trabalham com carteira assinada. Possuímos sete funcionárias e uma diretoria onde todos são associados voluntários que nos apoiam. O nosso dia a dia é muito permeado por essas relações de amizade e companheirismo, na qual cada um tem sua função, mas cada um está disposto a contribuir naquilo que for necessário, possuímos o laço forte entre a equipe e uma diretoria presente e é feito de portas abertas para a comunidade. Temos o movimento de centro de escuta que é o acolhimento de pessoas que tem problemas de consumo de drogas, onde elas podem vir para a fraternidade e ficar amanhã toda, onde nesse momento está toda a equipe mobilizada para fazer tudo funcionar, desde a cozinheira, operadora comunitária, coordenador do projeto, psicólogo, assistente social, voluntários e estagiários.  É um dia a dia cheio de gente. Somos uma rede que fomos construindo de muita parceria na qual nossa atenção se concentra para essas pessoas. Elas nos procuram nos outros dias também. Existe também o acolhimento das crianças e adolescentes na qual possui o atendimento muito intenso com projetos de judô e skate que acontecem durante a noite e aos sábados. Possuímos muito contato com a comunidade, fazendo trabalho de rua, indo nas casas fazendo visitas domiciliares envolvendo muitos estagiários e pessoas voluntarias para ter este contato direto com as pessoas, permeando relações em favor da mesma, em favor da vida. Oferecemos também nosso Espaço para outros grupos e até instituições para atividades, cursos que são realizados, reuniões. É um dia a dia feito de colaboração em favor da Vida.

A nossa articulação com as redes formais foi sendo construída pouco a pouco, fazendo relações, conhecendo as pessoas, indo nas Instituições,  participando de cursos e congressos a nível de estado e com isso estas relações foram se fortalecendo.  A gente ligava para estas pessoas contactadas nas Instituições. Ao longo desses dez anos temos uma rede bem fortalecida,  com algumas parcerias formais através de  convênios, outras para encaminhamentos ou acompanhamentos de casos como por exemplos dos consultórios nas ruas que fazem parte da Prefeitura Municipal de Teresina, Centro Pop e o Albergue Casa do Caminho. São articulações feitas de casos que serão acompanhados realizados de acordo com a demanda, ao total são 30 instituições formais que mantemos contato semanalmente por conta dos acompanhamentos de casos, de alguma capacitação. Como acompanhamos várias pessoas sentimos a necessidade de sentar para conversar regularmente. Nossa equipe se reúne durante a semana para poder estar sistematizando e registrando as atividades realizadas e eventos relevantes no dia a dia de cada pessoa acompanhada.  Temos instrumentos próprios da Metodologia que são utilizados para organizar os processos de melhora de vida. Fazemos a gestão dos casos. Na equipe tem profissionais da área da Assistência Social, da Psicologia, Educadores Sociais, Redutores de Dano e cada um tem a oportunidade de

A parte do trabalho que eu mais gosto é o contato direto com as pessoas. Eu mesma sou uma Parceira que passei por todo este processo de melhora de vida. Eu precisei do Tratamento Comunitário.  Eu fui fazer um Curso Superior de Psicologia aos 42 anos. Entendo isto como uma superação de limites. Quando iniciei não tinha grandes pretensões. Não pensava nesta incidência política tão necessária que leva você a participar de tantos espaços em Conselhos, Fóruns, Seminários. Tudo isto leva você a uma exposição muito grande e tantos compromissos. As pessoas foram me desafiando e eu aceitei. Acho muito legal eu mesma ser um fruto do Tratamento Comunitário. Eu tenho minha vida melhorada por conta de todo este processo. Gosto de não ter perdido meu vínculo com as pessoas. Eu não me fechei numa sala. Eu não tenho sala. Eu não me institucionalizei. Eu me considero um Recurso informal, um recurso comunitário, as pessoas me vem, me escutam, falam comigo.